A paternidade de Deus

Deus é pai! Essa é uma frase corriqueiramente dita pelos brasileiros. Mas que tipo de pai Deus seria? Para responder a essa pergunta, temos que vislumbrar as possibilidades de pais existentes. Vamos nos limitar, contudo, a duas delas, que estão em extremos opostos.

Primeiramente, o pai autoritário. Nesse caso, a ênfase está no que os filhos não podem fazer. Eles se conformam e praticam ações virtuosas mais por medo da repreensão do que por amor ao certo. A maior preocupação desse pai é evitar a desobediência do filho e não promover o seu bem.

Na outra ponta, está o pai permissivo. A ênfase está na criação de um ambiente de bem-estar para os filhos e não na correção de seu mau comportamento. Procura-se evitar que eles sejam contrariados e tenham emoções negativas. A maior preocupação desse pai é evitar o conflito e não solucionar o problema.

Perto de qual desses perfis Deus estaria? Essa resposta pode variar de acordo com nossas preferências. Os que se inclinam para o autoritarismo em seu comportamento, ou foram traumatizados por um pai tirano, tendem a ver a Deus por essas lentes. Já aqueles que têm ojeriza à figura de autoridade, ou idealizam o caráter amoroso de Deus, podem projetá-lo como um pai mais “light”. Entretanto, qual é o verdadeiro caráter paterno de Deus?

Poderíamos responder que é o equilíbrio entre esses dois pesos extremos. Será? É possível que sim, mas trata-se de uma resposta ainda pouco consistente. A opção mais confiável está nas páginas da Bíblia Sagrada, que é a revelação do caráter e da vontade de Deus para os seres humanos. O que a Bíblia Sagrada diz sobre a paternidade de Deus? Talvez não haja melhor resposta do que a apresentada pela Parábola do Filho Pródigo (Lucas 15.11-32). Vamos olhar para essa parábola de um ângulo diferente, do ponto de vista do pai.

O pai recebe de seu filho mais novo um pedido pela sua parte da herança. Apesar da não obrigatoriedade da aceitação e da expectativa de que reagisse mal, surpreendentemente, concorda com o pedido e divide sua propriedade entre seus dois filhos. Pouco tempo depois, vê o mais moço vender a sua parte, reunir suas coisas e sair de casa.

O tempo passa até que, em determinado dia, “estando ainda longe, seu pai o viu e, cheio de compaixão, correu para seu filho, e o abraçou e beijou”. Mais um vez, não demonstra estar ofendido, mas, sim, amor e alegria. Correr em direção ao filho é uma grande quebra de protocolo, já que os costumes da época ditavam que um homem idoso jamais deveria correr ao encontro de uma pessoa, ainda menos se tivesse sido ofendido por ela.

O pai ouve a confissão de seu filho e o pedido para ser recebido como um empregado. Como resposta, ordena que ele seja vestido com a melhor roupa e receba um anel em seu dedo e calçados em seus pés. Resgata a identidade e a dignidade do filho; restaura-lhe a honra e o respeito dentro de casa. Além disso, ordena que uma grande festa seja feita e que o novilho gordo, um animal reservado para ocasiões especiais, seja preparado.

Em dado momento, entretanto, o pai percebe que seu filho mais velho não está na festa. Mais uma vez, quebrando as expectativas, vai ao encontro desse filho e insiste para que ele entre. Diante da recusa e reclamação do filho, diz: “Meu filho, você está sempre comigo, e tudo o que tenho é seu. Mas nós tínhamos que celebrar a volta deste seu irmão e alegrar-nos, porque ele estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi achado”.

O que essa história nos ensina sobre o caráter paterno de Deus? Primeiramente, que Deus, muitas vezes, não age conforme as nossas expectativas, mas nos surpreende positivamente. Esperamos condenação, ele nos dá perdão. Esperamos rejeição, ele nos aceita. Em segundo lugar, que Deus não nos força a ficar com Ele, mas nos dá a liberdade de nos afastarmos e aproximarmos conforme a nossa vontade. “Quer ir, vá; quer voltar, volte”. Por fim que, quando decidimos voltar para Deus, apesar dos nossos pecados, Ele nos recebe com amor e alegria, restaurando a nossa identidade e dignidade de filhos. Esse é o caráter paterno de Deus.

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Sobre insightscristaos

Samyr Trad é teólogo, administrador e pastor na Igreja Batista Central de Belo Horizonte.
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