Trabalho e descanso: o que a Bíblia diz a respeito?

Muitos de nós têm uma visão negativa do trabalho. Têm-no como fruto do pecado, como um dos elementos da maldição e conseqüente sofrimento que passaram a assolar a terra após a transgressão dos primeiros seres humanos. A base bíblica para esse pensamento é Gênesis 3.17-19, que diz: “E ao homem declarou: ‘Visto que você deu ouvidos à sua mulher e comeu do fruto do árvore da qual lhe ordenara que não comesse, maldita é a terra por sua causa; com sofrimento você se alimentará dela todos os dias da sua vida. Ela lhe dará espinhos e ervas daninhas, e você terá que alimentar-se das plantas do campo. Com suor do seu rosto você comerá o seu pão, até que volte à terra, visto que dela foi tirado; porque você é pó, e ao pó voltará'”.

Contudo, a Bíblia apresenta o trabalho como precedente ao chamado pecado original. Em Gênesis 2.15, texto anterior ao relato da queda, está escrito que “o Senhor Deus colocou o homem no jardim do Éden para cuidar dele e cultivá-lo”. Cuidar e cultivar um jardim, ou melhor, um pomar, já que era um local com árvores frutíferas, e não apenas plantas e flores, certamente é um trabalho. Poderíamos dizer que Adão foi criado por Deus jardineiro, ou agricultor. O que se deu, após Eva e seu marido terem comido da árvore do conhecimento do bem e mal, é que o trabalho foi, conjuntamente com a terra e os seres humanos, amaldiçoado. Na prática, isso significou sofrimento, dificuldades, suor e desgaste associados ao ato de trabalhar. De prazeroso, o trabalho se tornou um desprazer.

O ápice desse mal-estar pode ser visto na escravidão, em que pessoas são obrigadas a trabalhar de sol a sol, sob o julgo de capatazes e em condições precárias. Essa foi a experiência dos descendentes de Israel no Egito Antigo. A Bíblia diz, em Êxodo 1.11-14, que os egípcios “estabeleceram, pois, sobre eles chefes de trabalhos forçados, para os oprimir com tarefas pesadas. E assim os israelitas construíram para o faraó as cidades-celeiros de Pitom e Ramessés. Todavia, quanto mais eram oprimidos, mais numerosos se tornavam e mais se espalhavam. Por isso os egípcios passaram a temer os israelitas, e os sujeitaram a cruel escravidão. Tornaram-lhes a vida amarga, impondo-lhes a árdua tarefa de preparar o barro e fazer tijolos, e executar todo tipo de trabalho agrícola; em tudo os egípcios os sujeitavam a cruel escravidão”.

A libertação dos antigos hebreus desse regime escravocrata se deu através de Moisés, após quatrocentos e trinta anos de estadia no Egito (cf. Êxodo 12.40-41). Atravessando o Mar Vermelho em terra seca, os israelitas rumaram para o deserto do Sinai, onde chegaram após três meses de peregrinação (cf. Êxodo 19.1). No monte que há nesse deserto, Moisés recebeu os chamados Dez Mandamentos, leis de Deus para a organização da sociedade israelita pós-escravidão. Uma das dez leis referia-se especificamente ao trabalho e dizia: “Lembra-te do dia de sábado, para santificá-lo. Trabalharás seis dias e neles farás todos os teus trabalhos, mas o sétimo dia é o sábado dedicado ao Senhor, o teu Deus. Nesse dia não farás trabalho algum, nem tu, nem teus filhos ou filhas, nem teus servos ou servas, nem teus animais, nem os estrangeiros que morarem em tuas cidades. Pois em seis dias o Senhor fez os céus e a terra, o mar e tudo o que neles existe, mas no sétimo dia descansou. Portanto, o Senhor abençoou o sétimo dia e o santificou”.

Semelhantemente ao trabalho, o descanso não é uma instituição do pós-queda. O próprio Deus o estabeleceu e observou após terminar a obra da criação (cf. Gênesis 2.2-3). Isso nos sugere que havia a possibilidade de o trabalho provocar cansaço antes de ser amaldiçoado, o que fazia do descanso necessário. A questão é que, com a corrupção originada pela primeira transgressão, e a posterior experiência de opressão dos israelitas, o descanso, além de princípio, teve de ser feito lei. O sofrimento e suor causados pelo trabalho deveriam ser compensados com um dia de descanso. Enquanto mandamento, o sábado (em hebraico, sabath, cujo significado é descanso) estabelecia, para ex-escravos habituados a trabalhar diariamente do nascer ao pôr-do-sol, a obrigatoriedade e necessidade de separarem um dia, após seis de trabalho, para descanso próprio e de todos os seus (filhos, servos, animais e estrangeiros).

Como trabalho e descanso são elementos anteriores à corrupção da criação pelo pecado, e Jesus não veio para abolir a lei, mas cumprí-la (cf. Mateus 5.17), podemos concluir que fazem parte do bom estado original dos seres humanos e, nos dias de hoje, devem ser observados. A vontade de Deus para homens e mulheres, especialmente os seus filhos, é que trabalhem com dedicação e excelência (cf. Colossenses 3.22-24), mas, igualmente, tenham o dia do descanso. Conforme Jesus disse, “o sábado foi feito por causa do homem” (Mateus 2.27). Em outras palavras, o descanso foi instituído para o bem dos seres humanos. E, quando não levado em conta, gera bem conhecidas más consequências.

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Sobre insightscristaos

Samyr Trad é teólogo, administrador e pastor na Igreja Batista Central de Belo Horizonte.
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Uma resposta para Trabalho e descanso: o que a Bíblia diz a respeito?

  1. Gustavo Marinho Advincula Reis disse:

    Pastor Samyr…
    Fico feliz em ver que o tempo passou, mas o teu sonho e os planos de Deus pra tua vida andaram lado a lado. Dos tempos em que convivemos juntos no “Coral”, vc declarava que um dia vc ministraria a palavra… Pois é, os prósitos de Deus são realidade em tua vida. Mande notícias. abçs!

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